Quando a Comissão da Mulher perde o sentido
Eleição de Erika Hilton para presidir a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados reacende indignação entre muitas mulheres que questionam quem realmente deve representar suas lutas e experiências
Charge ilustra reação de mulheres diante da eleição de Erika Hilton para presidir a Comissão da Mulher na Câmara, levantando debate sobre representação feminina e prioridades da pauta. Por Yasmim Borges
Sou mulher. E talvez seja justamente por isso que algumas coisas simplesmente não fazem sentido.
A eleição da deputada Erika Hilton para presidir a Comissão da Mulher na Câmara dos Deputados foi apresentada por alguns setores como um “marco histórico”. Mas para muitas mulheres brasileiras, a sensação foi outra: perplexidade.
Porque a Comissão da Mulher não nasceu como um palco ideológico. Ela nasceu como um espaço de defesa das mulheres. Das mulheres que enfrentam violência doméstica, que lidam com gravidez inesperada, que passam pela maternidade muitas vezes sozinhas, que recebem salários menores, que têm medo de voltar para casa à noite.
Mulheres que vivem realidades duras.
É para elas que essa comissão deveria existir.
Mas logo após assumir o cargo, a própria deputada deixou claro qual será o tom da gestão. Em publicações nas redes sociais, afirmou que agora preside o colegiado e que os críticos podem “espernear” ou até “latir”.
Sim, essa foi a escolha de palavras.
Também declarou que pretende defender “todas as mulheres”, incluindo mulheres trans dentro da pauta da comissão.
E é justamente aí que muitas mulheres olham para essa situação e pensam: espera aí…
- Quem vive as experiências que a Comissão da Mulher deveria discutir?
- Quem sente na pele o medo de um parceiro violento?
- Quem enfrenta os riscos de uma gravidez?
- Quem passa pela dor de um parto?
Quem convive com doenças que atingem exclusivamente o corpo feminino?
- Mulheres.
- Mulheres que nasceram mulheres.
- Isso não é discurso de ódio.
Isso é simplesmente realidade.
O curioso é que, quando mulheres levantam essa pergunta, muitas vezes são imediatamente atacadas. Algumas são chamadas de preconceituosas, outras de ignorantes.
Ou seja: mulheres agora precisam pedir licença para defender o próprio espaço que conquistaram.
E talvez o ponto mais curioso de toda essa história seja ver algumas mulheres defendendo essa situação com entusiasmo.
É quase como assistir alguém abrir mão da própria voz e ainda aplaudir.
A política brasileira já é cheia de absurdos. Mas transformar a Comissão da Mulher em mais um palco de disputa ideológica talvez seja um dos mais difíceis de explicar.
Porque enquanto o debate gira em torno de identidades, as estatísticas continuam lá.
Mulheres continuam sendo assassinadas.
Mulheres continuam sofrendo violência dentro de casa.
Mulheres continuam recebendo menos no trabalho.
Essas são as pautas que deveriam estar no centro da Comissão da Mulher.
- Não hashtags.
- Não militância.
- Não discursos inflamados nas redes sociais.
O cargo de presidente da comissão deveria ser um espaço de responsabilidade.
Mas quando críticas são tratadas como “latidos”, fica a impressão de que o debate deixou de ser político e virou simplesmente uma disputa de narrativas.
No fim das contas, a pergunta continua ecoando entre muitas brasileiras:
A Comissão da Mulher ainda é das mulheres?
Ou virou apenas mais um símbolo de uma política que perdeu completamente o senso de realidade?




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