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Brasília,29/08/2026

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Edição genética pode transformar tratamento do colesterol após reduzir LDL em mais de 50%

Terapia experimental com CRISPR altera gene ligado às gorduras no sangue e mantém efeito por pelo menos um ano; pesquisadores, porém, alertam que estudos maiores ainda são necessários


Edição genética pode transformar tratamento do colesterol após reduzir LDL em mais de 50% Terapia experimental baseada em edição genética reduziu o colesterol LDL em mais de 50% após uma única aplicação e manteve o efeito durante pelo menos um ano.

 Uma nova frente da medicina genética pode mudar a forma como pacientes com colesterol elevado são tratados no futuro. Pesquisadores conseguiram reduzir de maneira expressiva os níveis de colesterol LDL e triglicerídeos utilizando uma única infusão de uma terapia baseada na tecnologia CRISPR-Cas9, capaz de editar o DNA diretamente em determinadas células do organismo.

Os resultados de acompanhamento mostram que participantes tratados com a maior dose tiveram redução média de 52,5% no colesterol LDL, conhecido como colesterol ruim, depois de 12 meses. Os triglicerídeos apresentaram queda média de 47,8% no mesmo período. A pesquisa de fase 1 envolveu 15 pacientes com distúrbios lipídicos resistentes aos tratamentos convencionais.

A principal novidade não está apenas na intensidade da redução. O que chama atenção dos pesquisadores é a duração do efeito após uma única aplicação, abrindo a possibilidade de que determinadas pessoas possam, no futuro, receber uma terapia de longa duração em vez de depender durante décadas de medicamentos diários ou injeções frequentes.

Gene é desativado diretamente no fígado

O tratamento experimental, identificado como CTX310, utiliza a ferramenta CRISPR-Cas9 para desativar o gene ANGPTL3 nas células do fígado.

Esse gene participa do metabolismo das gorduras e está relacionado aos níveis de LDL e triglicerídeos no sangue. Pessoas que apresentam naturalmente determinadas variantes genéticas que reduzem sua atividade costumam ter concentrações menores dessas gorduras e menor risco de doença cardiovascular ao longo da vida.

A proposta dos cientistas é reproduzir parte desse efeito protetor por meio da edição genética.

O material responsável pela edição é transportado até o fígado, onde modifica o alvo genético previamente determinado. Ao contrário de medicamentos convencionais, que precisam continuar sendo administrados para manter seu efeito, a alteração realizada no DNA pode permanecer ativa por longo período.

Uma aplicação poderia substituir anos de tratamento

Se os resultados forem confirmados nas próximas fases dos ensaios clínicos, a tecnologia poderá ter impacto importante especialmente entre pacientes com formas graves ou hereditárias de colesterol elevado.

Hoje, muitas pessoas precisam utilizar estatinas e outros medicamentos durante praticamente toda a vida. Há também terapias injetáveis capazes de reduzir fortemente o LDL, mas que precisam ser reaplicadas periodicamente.

Uma intervenção genética realizada uma única vez poderia representar uma mudança importante na cardiologia preventiva, principalmente entre pacientes jovens que enfrentariam décadas de tratamento.

Apesar disso, os medicamentos já disponíveis atualmente conseguem atingir reduções de colesterol semelhantes ou até superiores em alguns casos. O diferencial da terapia genética está justamente na possibilidade de produzir um efeito prolongado depois de apenas uma intervenção.

Tratamento ainda não pode ser considerado cura

Embora os resultados sejam promissores, ainda é cedo para afirmar que a medicina encontrou uma forma definitiva de acabar com o colesterol elevado.

A pesquisa está na fase 1, etapa que avalia principalmente segurança e diferentes níveis de dosagem. Apenas 15 pessoas participaram do primeiro estudo, e somente quatro receberam a maior dose utilizada na pesquisa.

Isso significa que os números ainda precisam ser confirmados em grupos muito maiores antes que seja possível determinar a verdadeira eficácia da terapia e identificar eventuais riscos menos frequentes.

Outro ponto relevante é que uma edição genética pode ser permanente. Por isso, qualquer efeito inesperado também pode apresentar consequências de longo prazo, exigindo acompanhamento rigoroso.

A orientação da FDA, agência reguladora dos Estados Unidos, é que participantes desse tipo de terapia genética sejam acompanhados durante até 15 anos para avaliação de segurança.

Segurança será um dos principais desafios

Os pesquisadores informaram que não foram observados eventos adversos graves relacionados diretamente à terapia durante o período de acompanhamento de um ano.

Entre as ocorrências registradas estavam reações relacionadas à infusão e alteração temporária de enzimas associadas ao fígado em um participante, que posteriormente retornaram aos níveis normais.

Um dos pacientes morreu aproximadamente seis meses depois de receber a menor dose da terapia. Segundo os investigadores, ele apresentava doença cardiovascular grave e avançada, e o episódio não foi considerado relacionado ao tratamento experimental.

Também foi observada redução de aproximadamente 20% no HDL, frequentemente chamado de colesterol bom. Esse resultado continua sendo acompanhado pelos pesquisadores.

Próxima etapa envolverá mais pacientes

Um novo estudo está em andamento nos Estados Unidos e na Austrália e deverá envolver até 40 participantes utilizando a dose considerada mais promissora.

Caso os resultados permaneçam positivos, a terapia ainda terá que avançar pelas fases seguintes dos ensaios clínicos. Estudos de fase 2 e fase 3 envolvem grupos maiores e são fundamentais para estabelecer eficácia, segurança e possíveis efeitos adversos antes de qualquer autorização para uso comercial.

Portanto, mesmo diante dos resultados animadores, a tecnologia ainda poderá levar anos até eventualmente chegar aos hospitais e consultórios.

Edição genética ganha espaço na medicina cardiovascular

A utilização do CRISPR para tratar doenças cardiovasculares representa uma das áreas mais promissoras da medicina de precisão.

A tecnologia permite localizar partes específicas do DNA e realizar alterações direcionadas. Em vez de simplesmente controlar os efeitos provocados por uma doença, pesquisadores tentam interferir diretamente em alguns dos mecanismos genéticos responsáveis por ela.

O estudo sobre o ANGPTL3 mostra que essa estratégia pode ter potencial para controlar fatores de risco cardiovascular de maneira prolongada.

Entretanto, especialistas reforçam que ainda existem dúvidas importantes relacionadas à segurança de alterações genéticas irreversíveis, principalmente quando utilizadas no tratamento de doenças relativamente comuns e que já possuem medicamentos eficazes. Uma análise publicada no próprio New England Journal of Medicine destacou a necessidade de cautela e acompanhamento de longo prazo nesse tipo de intervenção.

Para milhões de pessoas que convivem com colesterol elevado, a descoberta representa uma perspectiva relevante para o futuro, mas não muda o tratamento atual. Medicamentos prescritos, alimentação equilibrada, atividade física e acompanhamento médico continuam sendo as principais formas de prevenção das doenças cardiovasculares.




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