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Brasília,01/11/2026

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Primeiro mestre surdocego da UnB supera barreiras e faz história

Com apoio da FAPDF, Iury Moraes concluiu pesquisa sobre acessibilidade, formação de professores e os desafios enfrentados por pessoas surdocegas no ensino superior.


Primeiro mestre surdocego da UnB supera barreiras e faz história Iury Moraes concluiu mestrado na Universidade de Brasília com apoio da FAPDF e desenvolveu pesquisa sobre os desafios da educação inclusiva.

A educação superior do Distrito Federal registrou uma conquista histórica em 2026. Iury Moraes Eminergídio tornou-se o primeiro estudante surdocego a conquistar o título de mestre pela Universidade de Brasília (UnB). A conclusão do curso representa um avanço na participação de pessoas com deficiência na pesquisa acadêmica e chama a atenção para a necessidade de ampliar as condições de acessibilidade nas universidades brasileiras. O pesquisador contou com uma bolsa da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF) para desenvolver seu trabalho e permanecer na instituição durante a pós-graduação.

A trajetória de Iury na UnB começou em 2016. Dez anos depois, ele concluiu o mestrado profissional em Educação na Faculdade de Educação, após enfrentar desafios relacionados à comunicação, ao acesso aos materiais acadêmicos e à organização das atividades de pesquisa. Sua dissertação, intitulada O saber na experiência do trabalho com pessoa surdocega: uma escrita autobiográfica, foi orientada pela professora Liège Kuchenbecker e apresenta uma análise construída a partir de suas próprias experiências educacionais e profissionais.

Experiência pessoal se transforma em conhecimento científico

A pesquisa desenvolvida por Iury coloca a vivência de uma pessoa surdocega no centro da discussão sobre educação inclusiva. Ao revisitar diferentes momentos de sua formação, o pesquisador identificou situações que demonstram como a falta de recursos adequados pode comprometer a autonomia e a participação de estudantes com deficiência.

O estudo aborda temas fundamentais para o desenvolvimento de políticas educacionais, como a capacitação de professores, a disponibilidade de tecnologias assistivas, a atuação de guias-intérpretes e a necessidade de adaptar métodos de ensino às particularidades de cada aluno.

Uma característica importante do trabalho está na maneira como foi produzido. A dissertação teve sua elaboração inicial em Língua Brasileira de Sinais (Libras), sendo posteriormente traduzida para o português escrito. O processo envolveu a produção de vídeos e o acompanhamento de profissionais que auxiliaram na organização do conteúdo acadêmico.

A metodologia demonstra que a produção científica pode exigir diferentes recursos de comunicação, especialmente quando envolve pesquisadores que utilizam formas específicas de expressão e aprendizagem.

Falta de acessibilidade ainda dificulta a vida universitária

Mesmo com a conquista do título de mestre, a trajetória de Iury expõe problemas que continuam presentes no ensino superior. Durante a pós-graduação, ele precisou conciliar os horários de utilização do laboratório de Libras com a disponibilidade de profissionais responsáveis pelo apoio à comunicação.

A leitura e a interpretação de textos acadêmicos extensos também exigiram tempo adicional, principalmente diante da complexidade dos conteúdos utilizados nas disciplinas e na elaboração da dissertação.

Em algumas ocasiões, o pesquisador precisou continuar suas atividades em casa, contando com a colaboração da mãe. Isso ocorreu porque o tempo disponível nas instalações da universidade não era suficiente para concluir determinadas etapas do trabalho.

Essas situações mostram que a inclusão universitária não pode ser limitada ao acesso às vagas. É necessário oferecer estrutura, acompanhamento especializado e condições que permitam aos estudantes desenvolver suas atividades acadêmicas com autonomia e participação efetiva.

Bolsa da FAPDF ajudou a financiar formação e acessibilidade

O apoio financeiro recebido por Iury foi concedido por meio do Programa Permanente de Desenvolvimento da Pós-Graduação (PDPG), iniciativa da FAPDF voltada ao fortalecimento da formação científica em cursos de mestrado e doutorado.

Além de contribuir para sua permanência no curso, o benefício ajudou a custear despesas relacionadas à acessibilidade, deslocamentos e participação em atividades acadêmicas.

Durante a formação, Iury participou de encontros e eventos voltados à educação e aos direitos das pessoas com deficiência. Entre eles estão a Semana Universitária da UnB, a Conferência Nacional de Libras e o Congresso das Apaes, realizado em Minas Gerais.

As experiências permitiram ao pesquisador apresentar conhecimentos, estabelecer contato com outras comunidades surdocegas e ampliar sua atuação em discussões sobre inclusão educacional.

O caso também destaca a importância dos investimentos públicos em ciência e tecnologia. Para pesquisadores que dependem de recursos específicos de acessibilidade, o financiamento pode representar uma condição decisiva para a continuidade dos estudos.

Formação de professores será prioridade na nova etapa

Com o mestrado concluído, Iury pretende direcionar parte de sua atuação profissional à qualificação de educadores. Seu objetivo é colaborar com a construção de práticas pedagógicas capazes de atender estudantes surdocegos de maneira mais adequada.

A proposta envolve compartilhar conhecimentos sobre comunicação, aprendizagem e acessibilidade, além de contribuir para que professores desenvolvam estratégias educacionais que considerem as características individuais de cada estudante.

O pesquisador também avalia a possibilidade de ingressar em um programa de doutorado, dando continuidade à produção científica na área da educação inclusiva.

A conquista representa um avanço importante para a Universidade de Brasília, mas também provoca uma reflexão sobre os desafios que ainda precisam ser enfrentados pelas instituições de ensino. A presença de pessoas com deficiência nos espaços acadêmicos exige investimentos permanentes, formação profissional e políticas que garantam condições reais de participação.

Ao transformar a própria história em pesquisa científica, Iury Moraes amplia a discussão sobre acessibilidade e demonstra a importância de reconhecer pessoas surdocegas também como produtoras de conhecimento. Sua trajetória reforça que uma universidade inclusiva precisa estar preparada não apenas para receber estudantes com deficiência, mas para oferecer os meios necessários à sua formação e ao desenvolvimento de suas capacidades.




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